✦ Blog

Vale do Catimbau convida a uma trilha entre pinturas rupestres e natureza

Ana Macêdo 18 de agosto de 2026 12 min de leitura

Entre pinturas rupestres, paredões monumentais, formações esculpidas pelo tempo e uma Caatinga que surpreende pela diversidade, percorri cerca de oito quilômetros pelo Parque Nacional do Catimbau, em Buíque, e descobri um destino onde natureza, arqueologia, aventura e a vida das comunidades locais fazem parte de uma mesma experiência

Vale do Catimbau convida a uma trilha entre pinturas rupestres e paisagens surpreendentes / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Eu já tinha visto fotografias do Vale do Catimbau antes de viajar para Buíque, em Pernambuco. Sabia das pinturas rupestres, dos grandes paredões e das formações rochosas que fazem o destino aparecer cada vez mais entre os lugares procurados por quem gosta de turismo de natureza e de aventura. O que eu ainda não sabia era que caminhar pelo Parque Nacional do Catimbau seria muito mais do que fazer uma trilha.

No percurso de Pau de arara, de Buíuqe PE para o Parque Nacional do Catimbau / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

A experiência começou antes mesmo de colocarmos os pés no caminho. Chegamos ao ponto de partida de pau de arara, com aquele clima de aventura que imediatamente envolveu o grupo. Crianças, jovens e adultos, inclusive o público 60+ seguiam juntos, alguns acostumados a trilhas, outros vivendo uma experiência como aquela pela primeira vez.

Foi assim que comecei a descobrir um pedaço de Pernambuco onde o tempo parece ter deixado suas marcas em diferentes camadas. E há ainda as marcas do presente, deixadas pelas pessoas que vivem no território e começam a enxergar no turismo uma possibilidade cada vez maior de trabalho, renda e valorização da própria cultura.

Buíque é a principal porta de entrada para o Vale do Catimbau

O município está localizado no interior de Pernambuco e funciona como principal porta de entrada para quem deseja conhecer o Vale do Catimbau. Seu território possui cerca de 1.295 quilômetros quadrados e a população estimada pelo IBGE passa dos 53 mil habitantes. É uma cidade cuja economia está ligada aos serviços, ao comércio, às atividades rurais e a outras cadeias produtivas que agora encontram no turismo uma nova possibilidade de desenvolvimento.

A paisagem muda, a Caatinga assume o protagonismo e começam a aparecer pequenos negócios ligados diretamente à presença dos turistas. São condutores, transportadores, artesãos, restaurantes, hospedagens e moradores que conhecem aquelas terras muito antes de o Catimbau começar a ganhar projeção nacional como destino turístico.

Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes do momento vivido pelo Vale do Catimbal. O patrimônio natural e arqueológico sempre esteve ali, mas existe atualmente um movimento para transformar essa riqueza também em oportunidade para quem mora no território. E há muito espaço para crescer.

Vale do Catimbau convida a uma trilha entre pinturas rupestres e paisagens surpreendentes / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

O Parque Nacional do Catimbau protege mais de 62 mil hectares de Caatinga

O Parque Nacional do Catimbau foi criado em 2002 e possui mais de 62 mil hectares distribuídos entre os municípios pernambucanos de Buíque, Ibimirim e Tupanatinga. Estamos falando de uma área gigantesca protegida no coração da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro e ainda cercado por muitos estereótipos.

Quem imagina a Caatinga apenas como um ambiente seco, com pouca vida e diversidade, pode se surpreender ao caminhar pelo Catimbau, onde a riqueza desse bioma se revela ao longo do percurso e se tornou uma das coisas que mais me chamaram a atenção durante a experiência.

Os guias explicaram como a vegetação se adapta às condições do semiárido, falaram das plantas utilizadas tradicionalmente para diferentes finalidades e alertaram para espécies que não devem ser tocadas. Também aprendemos que muitos animais se escondem ou se camuflam entre a vegetação e que observar é sempre melhor do que interferir. Esse é um aprendizado que acontece enquanto se caminha.

O parque reúne cactáceas, bromélias e espécies características da Caatinga, além de uma fauna formada por animais como raposas, tatus, mocós, seriemas, gaviões, lagartos e outras espécies adaptadas às condições desse ambiente. Mas é quando os paredões começam a aparecer que a dimensão do Catimbau realmente se revela.

São chapadões, pequenas cavernas, cânions e enormes formações rochosas surgem diante do visitante como esculturas naturais. A sensação que dá é de que Deus trabalhou cuidadosamente aquela paisagem. E trabalhou mesmo!

Vale do Catimbau convida a uma trilha entre pinturas rupestres e natureza / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

A arqueologia transforma a caminhada em uma viagem pelo tempo

A riqueza arqueológica é um dos grandes motivos para conhecer o destino e ajuda a colocar o Vale entre os territórios mais importantes do Brasil, afinal o parque reúne 30 sítios arqueológicos registrados e é apontado como o segundo maior parque arqueológico do Brasil. Inclusive é importante para quem deseja compreender a presença humana no Nordeste em tempos muito anteriores à formação das cidades que conhecemos hoje.

Durante nossa trilha, o guia, Roberto Márcio, que nos acompanhava contou que trabalha no Vale desde 1997, antes mesmo da criação oficial do Parque Nacional do Catimbau, e essa informação despertou meu interesse porque mostra que o conhecimento sobre o território não está apenas nos livros, mas também nas pessoas que há décadas percorrem esses caminhos, que aprenderam a interpretar a paisagem e que hoje ajudam o visitante a compreender melhor tudo o que encontra pelo percurso.

Foi com essas explicações que iniciamos a Rota das Pinturas Rupestres e, a partir dali, o passeio ganhou uma nova dimensão, porque deixamos de olhar apenas para a beleza da paisagem e começamos a procurar os sinais deixados por quem viveu naquela região milhares de anos antes de nós.

Vale do Catimbau em Pernambuco Rota das Pinturas Rupestres / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Vale do Catimbau em Pernambuco Furna das Cinzas / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Vale do Catimbau em Pernambuco Casa de Farinha / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

A Rota das Pinturas Rupestres revela registros de diferentes períodos

Nossa caminhada passou por sítios arqueológicos como a Furna das Cinzas e a Casa de Farinha, onde as paredes rochosas guardam registros associados a diferentes tradições rupestres. Para além de desenhos antigos, são vestígios da passagem de populações que viveram naquele território e deixaram marcas que ainda hoje despertam muitas perguntas.

Durante a explicação, nosso guia contou que há indícios de que esses espaços também teriam sido utilizados por povos indígenas para a realização de rituais, uma informação que acrescentou ainda mais significado ao que estávamos observando. Quem eram essas pessoas, como viviam, quais eram suas crenças, o que pretendiam registrar e o que aquelas figuras representavam para elas?

Talvez nunca tenhamos todas as respostas, e é justamente esse mistério que torna tão fascinante estar diante das pinturas. Uma fotografia consegue registrar os desenhos, mas dificilmente traduz a sensação de observar pessoalmente. Foi um dos momentos em que mais percebi a dimensão histórica da viagem e também a responsabilidade de quem visita esses sítios.

Vale do Catimbau em Pernambuco Furna das Cinzas / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

As pinturas rupestres são patrimônio arqueológico e precisam ser tratadas como tal. Observar, fotografar sem interferir e seguir as orientações dos condutores são atitudes essenciais para aproveitar a experiência e, ao mesmo tempo, contribuir para que esse patrimônio continue preservado para as próximas gerações.

Vale do Catimbau em Pernambuco Furna das Cinzas / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Vale do Catimbau em Pernambuco Vale das Tartarugas / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

O Vale das Tartarugas mostra como a natureza também brinca com a imaginação

A caminhada ganhou uma nova paisagem quando chegamos ao Vale das Tartarugas, onde o chão rochoso forma desenhos que lembram cascos de tartarugas e, dependendo da imaginação de quem observa, até a couraça de um enorme animal pré-histórico. É uma daquelas paradas que despertam a curiosidade e fazem todo mundo procurar novas formas entre as pedras.

Essa diversidade, aliás, é uma das características mais interessantes do Vale do Catimbau, onde o cenário se transforma a cada trecho do percurso. Em um momento estamos diante de pinturas rupestres, pouco depois atravessamos um lajedo de formas curiosas e, mais adiante, surgem grandes paredões até que, ao ganhar altura, a trilha revela a imensidão do Vale diante dos nossos olhos.

Vale do Catimbau convida a uma trilha entre pinturas rupestres e paisagens surpreendentes / Ana Célia Minuto Turismo

Na Serra das Torres o Vale do Catimbau se revela diante dos olhos

Chegar à região da Serra das Torres foi o momentos em que o grupo naturalmente diminuiu o ritmo, não necessariamente pelo cansaço, mas porque era preciso parar e olhar. Diante de nós, uma grande extensão do Vale do Catimbau se revelava entre formações rochosas e diferentes tonalidades que mudavam conforme a incidência da luz.

É uma parada perfeita para fotografar e vale a pena guardar o celular por alguns minutos para simplesmente contemplar. A fotografia registra o cenário e o vídeo, o movimento, mas nenhum dos dois consegue traduzir completamente o vento, o silêncio, a dimensão da paisagem e a sensação de estar diante de algo muito maior do que nós. Talvez seja justamente isso que faça do Vale do Catimbau um destino de experiência, onde o visitante não se limita a observar a paisagem, mas se sente parte dela.

Vale do Catimbau convida a uma trilha entre pinturas rupestres e paisagens surpreendentes / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Os paredões guardam uma história anterior à presença humana

Formados ao longo de centenas de milhões de anos, eles ajudam a entender a grandiosidade daquele cenário. E é curioso pensar que, diante de tanto tempo, as poucas horas da nossa caminhada e os oito quilômetros percorridos parecem muito pouco.

 Paredão dos Letreiros fecha um percurso de grandes descobertas

O Paredão dos Letreiros foi outro ponto marcante do nosso roteiro, reunindo em um mesmo cenário geologia, arqueologia e beleza natural. As diferentes tonalidades do arenito mudam conforme a incidência do sol e criam uma composição que faz desse trecho um lugar que permanece na memória.

Aliás, escolher o ponto mais bonito do Vale do Catimbau é uma tarefa difícil e talvez nem faça sentido, porque uma das riquezas da experiência está justamente na diversidade da paisagem. Quando acreditamos ter encontrado o cenário mais impressionante do dia, basta caminhar um pouco mais para a trilha revelar outro. E foi assim, descoberta após descoberta, durante praticamente todo o percurso.


Uma experiência que também se faz de encontros

Uma viagem não é feita apenas dos lugares que conhecemos, mas também das pessoas que encontramos pelo caminho. Por isso, meu agradecimento especial vai para Val e Beth, da Correndo em Trilhas, pela oportunidade de conhecer o Vale do Catimbau de uma forma tão completa, acompanhada por quem entende o território e sabe a importância de proporcionar uma experiência segura e bem conduzida.

Também voltei dessa viagem trazendo novos amigos de caminhada com quem dividi descobertas, conversas, risadas e aqueles momentos que acabam tornando o percurso ainda mais especial. No final, percebi que as melhores lembranças do Catimbau não ficaram apenas nas fotografias das paisagens, mas também nas pessoas que fizeram parte delas.

Vale a pena visitar o Vale do Catimbau?

Vale sim, e não apenas para quem já tem experiência com trilhas, mas para quem procura um destino diferente, que gosta de estar em contato com a natureza, que valoriza experiências que contam a história do lugar. Sim, o Vale do Catimbau merece entrar no roteiro.


Minha opinião

Eu fui esperando encontrar uma bela trilha e encontrei um destino que me surpreendeu pela dimensão de tudo o que guarda. Gostei especialmente porque o Vale do Catimbau não entrega apenas uma paisagem bonita. A cada trecho havia algo para entender, observar ou descobrir, e isso fez toda a diferença para mim.

Também voltei com a sensação de que conheci apenas uma pequena parte de tudo o que o Vale pode oferecer. Há outros caminhos, outras experiências e muitas histórias que ficaram para uma próxima viagem. E esse, para mim, é um excelente sinal, pois gosto de destinos que não se esgotam na primeira visita. Quando um destino deixa essa vontade, é porque a viagem valeu.

Ana Célia Macêdo
jornalista de turismo e Anfitriã Local We Guide.
*Esta reportagem foi produzida a partir de uma experiência realizada em parceria com Val e Bete, da Correndo em Trilhas, que gentilmente me levaram para conhecer de perto o Parque Nacional do Catimbau, em Buíque.

Serviço:
Trilha no Parque Nacional do Catimbau
Quem realiza:
Correnndo em Trilhas / We Guide

Ana Célia Macêdo

Planeje sua trilha pelo Vale do Catimbau

Se você também quiser viver essa experiência, a Correndo em Trilhas está na We Guide, onde é possível conhecer o roteiro, conferir as informações do passeio e fazer a contratação. Espero que, em uma das próximas trilhas, seja a sua vez de descobrir o que o Vale do Catimbau tem a revelar.

 

🎤 MinutoCast

Ouça o podcast no Spotify e assista aos episódios no nosso canal.

Leia também

Leave a Comment