Às margens do Rio São Francisco, no Sertão alagoano, Piranhas parece ter sido desenhada para contar histórias. A cidade reúne casario colorido, ladeiras, escadarias e uma paisagem marcada pela caatinga. Do outro lado do Velho Chico está Sergipe e, a poucos quilômetros, a Bahia, localização que coloca o município em uma posição estratégica entre três estados do Nordeste.
Com 22.609 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE, Piranhas encontrou no turismo uma importante atividade econômica. São hotéis, pousadas, restaurantes, receptivos, guias, artesãos e pequenos negócios fazem parte de uma cadeia produtiva que movimentada principalmente pelos Cânions do Xingó, pela Rota do Cangaço e pelo patrimônio histórico e cultural do município.
O Sítio Histórico e Paisagístico de Piranhas foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2004. A proteção abrange o núcleo histórico, o povoado de Entremontes e um trecho de 13 quilômetros do Rio São Francisco. São cerca de mil imóveis dentro do perímetro protegido, formando um conjunto que ajuda a compreender a ocupação e a integração social e comercial dessa parte do Nordeste.
A relação com o rio também explica a importância econômica que Piranhas alcançou no passado. Localizada no último trecho navegável do Baixo São Francisco, a cidade ganhou, no final do século XIX, uma estrada de ferro destinada a facilitar o escoamento da produção do Médio e Alto São Francisco. Essa memória permanece na paisagem urbana e ajuda a explicar parte da arquitetura que o visitante encontra hoje.
Foi nesse cenário que organizei um roteiro de dois dias para conhecer algumas das experiências mais representativas de Piranhas e de seu entorno.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Xingó e a paisagem transformada pelas águas
O roteiro começou pela Usina Hidrelétrica de Xingó, empreendimento que mudou a dinâmica desse trecho do Rio São Francisco e também teve reflexos importantes sobre o turismo regional.
O enchimento do reservatório ocorreu em julho de 1994. Com o represamento das águas, formou-se um lago artificial que passou a ocupar parte do cânion natural do São Francisco e criou novas possibilidades de navegação e lazer.
Conhecer Xingó antes de seguir para os cânions ajuda a compreender a paisagem que será vista em seguida. De um lado está uma das grandes obras de infraestrutura energética do Nordeste; do outro, um ambiente que encontrou no turismo uma nova forma de aproveitamento econômico.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Vânia Monteiro, Ana Célia Macêdo e Maly Silva / Minuto Turismo

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Cânions do Xingó pelo Velho Chico
O passeio pelos Cânions do Xingó foi realizado em catamarã da MFTur. O roteiro regular parte de Canindé de São Francisco, em Sergipe, e percorre cerca de 18 quilômetros pelo Rio São Francisco até alcançar os paredões dos cânions.
À medida que a embarcação avança, a paisagem muda. As formações rochosas passam a dominar as duas margens e contrastam com as águas esverdeadas e a vegetação da caatinga.
O percurso ajuda a quebrar uma imagem ainda muito associada ao sertão como território exclusivamente seco. Ali, a água ocupa o centro da paisagem e também da atividade turística.
No passeio regular, a MFTur prevê aproximadamente três horas de experiência, incluindo navegação e parada na região dos cânions. Há ainda a possibilidade de conhecer a Gruta do Talhado em embarcação menor, como atividade opcional.
No meu roteiro, a navegação se estendeu até o fim da tarde, permitindo acompanhar o pôr do sol sobre o São Francisco. A mudança da luz sobre as águas e as formações rochosas encerrou o primeiro dia antes do retorno ao Hotel Dunen, onde fiquei hospedada durante a passagem por Piranhas.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Dois dias em Piranhas entre o Velho Chico, os cânions e o cangaço / Ana Célia / Macêdo Minuto Turismo
Rota do Cangaço pelo Rio São Francisco
No segundo dia, o São Francisco voltou a ser o caminho, mas a proposta era diferente. Em outro passeio de catamarã da MFTur, seguimos pela Rota do Cangaço, experiência que combina navegação, paisagem sertaneja e memória histórica.
A travessia mostra como Alagoas e Sergipe estão conectados pelo rio e por uma narrativa que ultrapassa as fronteiras estaduais. De um lado está Piranhas, fortemente associada à memória do cangaço; do outro, Poço Redondo, em Sergipe, município onde fica a Grota do Angico.
O catamarã fez uma parada no Cangaço Eco Parque, instalado às margens do São Francisco. O espaço funciona como ponto de apoio para quem deseja permanecer na área e também como acesso aos roteiros terrestres relacionados à história do cangaço.
É dali que visitantes podem seguir para a trilha da Grota do Angico, local da emboscada que resultou na morte de Lampião, Maria Bonita e integrantes do bando em 1938.
Mesmo sem percorrer a trilha, a parada ajuda a compreender a geografia dessa história. A caatinga, o rio e as distâncias entre as duas margens deixam de ser apenas referências encontradas nos livros e passam a fazer parte da leitura do território.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Entremontes e a tradição do redendê
A viagem pelo São Francisco continuou até Entremontes, povoado pertencente a Piranhas e incluído na área protegida pelo IPHAN.
Às margens do rio, a vila preserva casario tradicional e uma atividade que se tornou uma de suas principais referências culturais e econômicas: o bordado.
Entremontes é conhecida especialmente pelo redendê e pelo ponto-cruz, técnicas transmitidas entre gerações. No redendê, linha, agulha, tesoura e bastidor dão origem a desenhos geométricos formados a partir da própria trama do tecido.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
O saber está profundamente ligado às mulheres da comunidade. Durante décadas, mães e avós ensinaram filhas e netas, transformando o bordado em ofício, fonte de renda e elemento de identidade local.
Hoje, essa tradição também encontra novos caminhos. O trabalho desenvolvido em Entremontes ganhou projeção fora de Alagoas e chegou inclusive à moda brasileira, mostrando que preservar um saber tradicional não significa mantê-lo parado no tempo.
Caminhar pelo povoado permite perceber como o bordado está inserido no cotidiano. Ele aparece nas casas, nos espaços de comercialização e nas mãos das artesãs, aproximando o visitante de uma atividade que continua sendo produzida dentro da própria comunidade.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Gastronomia em Entremontes
A passagem pela vila incluiu almoço no Restaurante Maria Gogó.
Em um roteiro que tem forte ligação com a cultura local, a gastronomia funciona como complemento natural da experiência. A parada permite conhecer sabores da cozinha regional e, ao mesmo tempo, permanecer um pouco mais na comunidade antes de seguir viagem.
Entremontes mostra justamente como diferentes atividades podem formar um mesmo produto turístico. Patrimônio, artesanato, gastronomia e a paisagem do São Francisco se complementam e ampliam o tempo de permanência do visitante no povoado.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Centro Histórico de Piranhas
De volta à cidade, o roteiro seguiu pelo Centro Histórico, parte fundamental para compreender por que Piranhas não deve ser vista apenas como ponto de partida para os cânions e para a Rota do Cangaço.
O conjunto urbano se desenvolveu entre o rio e os morros, característica que explica suas ladeiras, escadarias e a disposição irregular das construções. O acervo arquitetônico reúne edificações de diferentes períodos, com presença significativa de imóveis do século XIX e início do século XX.
A antiga relação com a navegação e com a ferrovia permanece como uma das marcas mais importantes da cidade. No final do século XIX, a estrada de ferro permitiu superar o trecho do São Francisco onde a navegação já não conseguia avançar, favorecendo a circulação de pessoas e mercadorias.
Essa história pode ser percebida enquanto se percorre o núcleo protegido, onde estão construções como a antiga Estação Ferroviária, a Torre do Relógio e a Igreja Nossa Senhora da Saúde.
O roteiro incluiu ainda o Centro de Artesanato, reforçando a presença da produção local entre os atrativos da cidade.
Piranhas é um destino especialmente interessante para ser percorrido a pé, embora suas ladeiras e escadarias exijam atenção de pessoas com mobilidade reduzida. Caminhar pelo núcleo histórico permite observar detalhes das fachadas, entrar nos pequenos estabelecimentos e encontrar diferentes perspectivas do Rio São Francisco entre as construções.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Xaxado para fechar o roteiro
A última noite foi novamente no Centro Histórico, com jantar na Cachaçaria Altemar Dutra e apresentação de xaxado.
Depois de um dia dedicado à Rota do Cangaço, a dança ganhou outro significado dentro do roteiro. Associado historicamente aos cangaceiros, o xaxado atravessou o tempo e permanece como uma das expressões culturais ligadas à memória do sertão.
A apresentação funciona, portanto, não apenas como entretenimento, mas como continuidade de uma narrativa que o visitante acompanha em diferentes momentos da viagem.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Vale a pena passar dois dias em Piranhas?
Dois dias permitem conhecer alguns dos principais atrativos de Piranhas e ainda incluir experiências em Sergipe, aproveitando a proximidade entre os dois estados.
O primeiro dia pode ser dedicado a Xingó e ao passeio pelos cânions. No segundo, a Rota do Cangaço, Entremontes e o Centro Histórico formam uma sequência que combina natureza, patrimônio, artesanato e cultura.
Para quem dispõe de mais tempo, vale ampliar a permanência. Piranhas possui outros atrativos e, principalmente, um Centro Histórico que merece ser percorrido sem pressa.
Também é importante considerar as características de cada passeio. Navegações têm horários definidos, atividades opcionais podem ser cobradas separadamente e trilhas como a da Grota do Angico exigem disposição física, proteção contra o sol, hidratação e acompanhamento adequado.

O que fazer em Piranhas, Alagoas em dois dias entre cânions e cangaço / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Minha opinião
Depois de dois dias, o que mais me chamou a atenção em Piranhas foi a diversidade de experiências concentradas em um território relativamente pequeno.
Eu já conhecia a ligação da cidade com Lampião e Maria Bonita e sabia da fama dos Cânions do Xingó, mas estar lá mostrou que o destino vai muito além dessas duas referências.
Gostei especialmente da forma como o Rio São Francisco conecta praticamente todo o roteiro. Ele aparece na história da cidade, na geração de energia, nos cânions, no caminho para a Rota do Cangaço, na vida de Entremontes e na própria paisagem do Centro Histórico.
Também considero Entremontes uma das paradas que merecem atenção. Conhecer as bordadeiras e perceber como um saber transmitido entre gerações se transformou em identidade e atividade econômica acrescenta outra dimensão à viagem.
Dois dias foram suficientes para conhecer bastante, mas também para perceber que ainda havia muito a descobrir. Voltei de Piranhas com aquela sensação boa que alguns destinos deixam: a de que ainda existe motivo para voltar.
Ana Célia Macêdo
* Estive em Alagoas para participar da reunião do Conselho Nacional da ABRAJET, promovida pela ABRAJET Nacional em parceria com a ABRAJET Alagoas. Durante a programação, tive a oportunidade de conhecer os atrativos de prdutos turísticos de Piranhas em um roteiro realizado com o apoio da Secretaria Municipal de Turismo, da Luck Receptivo e do Dunen Hotel Piranhas, do catamarã da MFTur, com o acompanhamento de guias de turismo especializados, que proporcionaram uma experiência rica em história, cultura e hospitalidade.
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