Durante três dias, profissionais de turismo e imprensa percorreram Rio Tinto, Baía da Traição, Marcação e Mataraca em uma imersão que reuniu cultura indígena, natureza, gastronomia e pequenos negócios
A Rota Terra dos Potiguara, no Litoral Norte da Paraíba, ganhou novas experiências e produtos turísticos que ampliam as possibilidades para quem deseja conhecer a região e, principalmente, permanecer mais tempo no território. Entre os dias 28 e 30 de agosto, participei do famtour Saberes Ancestrais – História, Cultura e Natureza, uma imersão por Rio Tinto, Baía da Traição, Marcação e Mataraca para apresentar esse novo momento da rota a profissionais do turismo e da imprensa.
Foram três dias intensos, mas necessários para entender que conhecer a Terra dos Potiguara não cabe em um “bate e volta”. Entre aldeias indígenas, trilhas, manguezais, rios, praias, gastronomia, artesanato, patrimônio histórico e projetos ambientais, encontramos empreendedores que estão estruturando seus negócios para receber melhor o turista e transformar toda essa diversidade em produtos que possam ser comercializados pelo mercado.
A proposta vem sendo trabalhada pelo Sebrae, por meio do programa Agentes de Roteiros Turísticos (ART), em articulação com municípios e empreendedores locais. Em 2026, o trabalho está concentrado no fortalecimento da identidade da Rota Terra dos Potiguara, na integração entre os municípios e na qualificação da oferta turística.
Uma rota para ficar e não apenas passar
Já na abertura do famtour, a agente de Roteiros Turísticos do Sebrae no Vale do Mamanguape, Laís Ramos, deixou claro qual é um dos principais desafios da nova fase: aumentar o tempo de permanência dos visitantes.
Segundo ela, a rota vem despertando interesse de mercados internacionais, mas, para avançar, é necessário oferecer experiências capazes de fazer com que o turista permaneça no território, consuma produtos e serviços e gere novas oportunidades para quem vive ali.
“A gente quer que cada vez mais quem vem aqui realmente entenda que não é só um “bate e volta”, não é só uma visita. É vir, ficar, permanecer e voltar diversas vezes para poder compreender toda a riqueza cultural e da natureza que existe aqui”, explicou Laís.
Essa estratégia ficou bastante evidente durante o percurso. Em vez de apresentar apenas pontos turísticos conhecidos, a programação colocou os participantes em contato direto com pessoas que transformam cultura, conhecimentos ancestrais e recursos naturais em experiências turísticas. E isso faz diferença.

Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Cultura Potiguara contada por quem vive no território
Na Aldeia São Miguel, em Baía da Traição, conhecemos a Casa da Lua e os Encantos Potiguara, onde a experiência passa pela história, espiritualidade, ervas, artesanato, arco e flecha e gastronomia indígena. A programação oficial incluiu ainda visita à oficina de artesanato no Espaço Coan e à Aldeia Alto do Tambá, com agricultura orgânica.
São experiências que permitem ao visitante compreender um pouco mais sobre os saberes transmitidos entre gerações e, principalmente, ouvir essas histórias diretamente de quem pertence ao território.

Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Para o secretário de Turismo de Baía da Traição, Edson Trigueiro, receber turistas também exige respeito à identidade indígena. “Os turistas são recebidos aqui com segurança e com respeito à cultura indígena. O que interessa é que as pessoas se sintam bem dentro do território Potiguara”, afirmou o secretário. Ele também chamou atenção para algo que precisa estar presente quando se fala da região: o território Potiguara ultrapassa os limites de um único município e alcança também áreas de Marcação e Rio Tinto.

Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara/Sec. Turismo Rio Tinto, PB.
Rio Tinto une história, patrimônio e hospedagem
Em Rio Tinto, a programação começou, com experiências ligadas à natureza e à vida no campo, incluindo passeio de canoa, trilha no mangue e vivências na Ilha do Aritingui. No final da tarde, o roteiro mudou completamente de cenário e seguiu para uma caminhada pela cidade-fábrica.
Essa diversidade também aparece quando se observa o conjunto de atrativos do município. O secretário de Turismo de Rio Tinto, Wellington Lima, destaca que a oferta turística reúne a cultura Potiguara, o artesanato e as manifestações populares, além do patrimônio histórico ligado à própria formação da cidade.
Entre os exemplos estão o Cine Orion, o antigo parque fabril e outras edificações que preservam parte dessa história. Para o secretário, reunir patrimônio, cultura e natureza amplia as possibilidades de visitação e ajuda a posicionar Rio Tinto dentro da Rota Terra dos Potiguara.
Rio Tinto também possui uma estrutura importante para uma rota que pretende aumentar a permanência do turista: hospedagem.
Durante o famtour, ficamos hospedados no Hotel SESI Rio Tinto, utilizado como base para parte da programação.
A gerente de Atividades Finalísticas do SESI, Vera Simões, explicou que a unidade passa por um processo de aprimoramento que inclui tecnologia, sustentabilidade e maior integração com a identidade do território.
Segundo ela, o hotel possui 16 apartamentos, piscina com tratamento por salinidade, academia e utilização de energia solar no sistema de água, além de um trabalho para incorporar à experiência do hóspede a elementos da história e da cultura local.
Essa estrutura é especialmente importante porque não existe aumento do tempo de permanência sem hospedagem, sem alimentação, sem serviços e sem atividades suficientes para ocupar mais de um dia de viagem.

Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara / Divulgação
Em Marcação, um antigo lixão dá lugar ao turismo
No município de Marcação, onde conhecemos o Projeto Curica, na Aldeia Três Rios, a experiência merece atenção não apenas pelo turismo, mas pela história ambiental que existe por trás dela.
De acordo com o secretário municipal de Turismo e Eventos, Igor Rocha, a área onde atualmente funciona o projeto abrigava um lixão. O espaço passou por reflorestamento e hoje recebe visitantes para atividades ligadas à cultura indígena, ao meio ambiente e ao plantio de mudas. “É um projeto que tem todo um resgate ambiental, de reflorestamento e de vivência na cultura indígena”, explicou o secretário.
Para quem trabalha com turismo sustentável, é um exemplo interessante de como uma área degradada pode ganhar uma nova função quando recuperação ambiental, comunidade e visitação são pensadas de maneira integrada.

Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara / Divulgação
Gastronomia também entra na estratégia
O famtour terminou em Mataraca, com o almoço de lançamento do Festival Gastronômico Sabores do Mar, previsto na programação oficial para o último dia da viagem. A escolha da gastronomia para encerrar o roteiro também reforça um dos caminhos que vêm sendo trabalhados na região: qualificar os sabores locais e transformá-los em parte da experiência turística.
O secretário de Turismo de Mataraca, Ivan Burity Filho, explicou que a proposta nasceu a partir do trade turístico da Barra do Camaratuba e que existe a intenção de expandir a experiência para outros municípios da região. A ideia é trabalhar a capacitação do setor gastronômico de forma ampla, alcançando desde pequenos vendedores de alimentos até restaurantes com cardápios mais elaborados.
Um ponto da fala de Ivan me chamou particularmente a atenção: qualificar não significa descaracterizar.
A proposta, segundo ele, é melhorar aquilo que já pertence ao território, em vez de importar modelos gastronômicos de outros lugares. “Não é inventar ou aparelhar ideias de outros lugares, e sim qualificar e melhorar a gastronomia da própria terra”, pontuou Ivan.
É uma diferença importante. Para o turismo, principalmente quando estamos falando de um território com identidade cultural tão forte, profissionalizar o serviço sem apagar suas características é fundamental.

Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Pequenos negócios fazem parte da experiência
Essa talvez tenha sido uma das percepções mais claras durante os três dias de viagem. O turista não encontra apenas uma praia, uma trilha ou uma aldeia. Para permanecer no destino, ele precisa conhecer a história e viver experiências. E essas etapas podem representar renda para alguém que vive no território.
A própria concepção do famtour previa essa relação. O material entregue aos participantes destacava que, embora hospedagem e refeições principais estivessem incluídas, artes, sabores e serviços das comunidades estariam disponíveis para compra, justamente como forma de estimular a geração de renda e valorizar a cultura Potiguara.
Foi possível perceber, durante o percurso, que Sebrae, secretarias municipais de Turismo e empreendedores vêm trabalhando nessa direção. Há negócios em diferentes níveis de estruturação, mas existe um movimento para transformar recursos que já pertencem ao território em produtos turísticos mais preparados para receber e atender o visitante.

Ana Célia Macêdo / Teresa Duarte / Laís Ramos Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara / Minuto Turismo
Entre João Pessoa e Natal, um território para ser descoberto com tempo
No encerramento, Laís Ramos voltou a uma questão estratégica: a localização. A Rota Terra dos Potiguara está entre João Pessoa e Natal, próxima à BR-101, e reúne praias, rios, lagoas, manguezais, patrimônio histórico e, sobretudo, a presença e a cultura do povo Potiguara.
Para ela, o desafio agora é conquistar não somente mercados mais distantes, mas também paraibanos, norte-rio-grandenses e viajantes que passam pela BR-101 e ainda não enxergam a região como um destino onde vale a pena parar e permanecer.

Famtour apresenta novos produtos e experiências da Rota Terra dos Potiguara / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Após percorrer o roteiro durante três dias, esse argumento faz sentido.
O famtour foi produtivo justamente porque permitiu olhar para a região como um conjunto, e não como uma sequência de atrativos isolados. Rio Tinto, Baía da Traição, Marcação e Mataraca têm características próprias, mas ganham força quando são apresentados como partes de uma mesma viagem.
Para agentes de turismo, isso significa a possibilidade de trabalhar um produto mais completo. Para o visitante, significa descobrir que há muito mais para fazer na região do que uma passagem rápida pelo litoral. E, para os pequenos negócios locais, quanto mais tempo esse turista permanecer, maiores são as possibilidades de transformar turismo em geração de renda.
Esse é o principal desafio da nova fase da Rota Terra dos Potiguara: fazer com que quem chega tenha motivos para ficar e, após conhecer, tenha vontade de voltar.
Ana Célia Macêdo
* Estive no Famtour Saberes Ancestrais – História, Cultura e Natureza, a convite do Sebrae Paraíba.
Relacionado
🎤 MinutoCast
Ouça o podcast no Spotify e assista aos episódios no nosso canal.