Setembro nos convida a falar de Independência e, para o turismo, esse momento também é uma oportunidade de refletir sobre identidade e pertencimento. Somos um país de dimensões continentais, marcado por uma diversidade natural e cultural difícil de encontrar em qualquer outro lugar do mundo. Temos praias, florestas, serras, sertões, rios, cidades históricas, comunidades tradicionais, gastronomias, festas, sotaques, músicas, saberes e modos de viver que se transformam de uma região para outra.
Ainda assim, tenho a impressão de que nem sempre conseguimos enxergar tudo isso com o mesmo encantamento de quem chega de fora. E talvez esteja aí um dos grandes desafios do turismo brasileiro: antes de convencer o mundo sobre o valor do Brasil, precisamos reconhecer melhor o valor do que é nosso.
O mundo está olhando para o Brasil
O momento é particularmente interessante para fazer essa reflexão, porque o Brasil encerrou 2025 com cerca de 9,3 milhões de turistas internacionais, crescimento de aproximadamente 37% em relação a 2024 e o maior número já registrado pelo país. A ONU Turismo também apontou o Brasil entre os grandes destaques do crescimento do turismo internacional naquele ano.
O resultado econômico acompanhou esse movimento. Os gastos dos visitantes internacionais chegaram a aproximadamente US$ 7,9 bilhões em 2025, outro recorde.
São números que merecem comemoração, pois revelam mais estrangeiros interessados no Brasil, o que significa maior circulação de dinheiro, geração de negócios, empregos e oportunidades em uma ampla cadeia produtiva. O turismo movimenta agências e operadoras, transportes, guias de turismo, meios de hospedagem, restaurantes, comércio, artesanato, pequenos produtores, economia criativa e inúmeros outros profissionais e empreendimentos que fazem a atividade acontecer.
O Brasil vive um momento de grande visibilidade turística internacional e o mundo parece cada vez mais curioso para nos conhecer. É preciso considerar, no entanto, que esse crescimento também encontra um aliado no câmbio. A desvalorização do real frente a moedas mais fortes torna o Brasil um destino mais competitivo para muitos visitantes estrangeiros, que encontram aqui maior poder de compra. Esse fator, somado à promoção internacional, à ampliação da conectividade aérea e à própria diversidade da oferta turística brasileira, ajuda a explicar o aumento da procura pelo país.
O que essas pessoas vêm procurar no Brasil?
Certamente, turistas não viajam milhares de quilômetros para encontrar uma reprodução daquilo que já possuem em seus países. Eles procuram justamente aquilo que nos diferencia: nossa natureza, nossa gastronomia, nossa cultura, nossa música, nossa arquitetura, nossa história e, sobretudo, as pessoas que dão identidade aos lugares.
A própria estratégia oficial de promoção internacional caminha nessa direção. O Plano Brasis, que orienta a promoção turística internacional entre 2025 e 2027, trabalha com a valorização das experiências brasileiras e busca distribuir de maneira mais equilibrada e sustentável o fluxo internacional pelo território nacional. Se a diversidade é um dos nossos maiores ativos turísticos, precisamos transformá-la em oportunidade para mais territórios.
O Brasil turístico vai muito além dos cartões-postais
Não estou dizendo que devemos deixar de promover os destinos consolidados. Pelo contrário. Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Salvador, São Paulo, Recife, Fortaleza e tantos outros destinos cumprem papel fundamental na imagem e na economia turística brasileira. O problema aparece quando confundimos esses grandes destinos com a totalidade da nossa oferta. Existe um Brasil imenso para além dos cartões-postais.
Tenho percebido, nas viagens que faço pelo Nordeste e, especialmente, pela Paraíba, que algumas das descobertas mais surpreendentes estão longe dos destinos consagrados. A interiorização do turismo vem revelando um Brasil ainda invisível para muitos, feito de pequenos municípios, comunidades, saberes, sabores, paisagens e experiências profundamente ligados à cultura e ao território. É um Brasil que sempre esteve ali, mas que começa a ser descoberto por novos olhares.
Recentemente, vivi uma experiência em Baía da Traição, no Litoral Norte da Paraíba, que me fez refletir ainda mais sobre essa questão. Conheci de perto o trabalho de Raoni Potiguara, indígena da Aldeia São Miguel, ecólogo formado pela Universidade Federal da Paraíba e guia de turismo. Raoni compreendeu que sua identidade, a história de seu povo, os saberes tradicionais e a relação com a natureza também podem fazer parte de uma experiência turística conduzida por quem pertence ao território.
Ao apresentar a cultura Potiguara aos visitantes, ele não está apenas mostrando atrativos. Ele está contando a própria história e contribuindo para que o turismo gere oportunidades sem se desvincular da preservação cultural e ambiental. Para mim, esse é um bom exemplo do que significa valorizar o que é nosso: reconhecer primeiro a riqueza do próprio território para, então, compartilhá-la com quem chega.
Assim como acontece em Baía da Traição, essa riqueza se revela de diferentes formas pelo Brasil. Pode estar na conversa com um artesão, em uma receita preparada há gerações, em uma casa de farinha em funcionamento, em uma trilha conduzida por alguém que conhece aquela mata desde criança, em uma manifestação religiosa que movimenta uma comunidade inteira, em uma ave que transforma uma pequena cidade em destino para observadores ou em um bordado que carrega uma história familiar.
Separadamente, talvez pareçam coisas simples. No turismo, porém, são expressões da identidade de um território e podem representar exatamente aquilo que muitos viajantes procuram: experiências com significado, conduzidas por quem conhece e vive o lugar.
O próprio Sebrae vem trabalhando a relação entre cultura, identidade e turismo, associando patrimônio material e imaterial, memória coletiva, tradições locais, turismo de base comunitária e construção de experiências turísticas à valorização dos territórios. Essa é uma visão que considero fundamental. Inclusive, é importante dizer que nem todo município precisa criar um grande produto. Nem toda cidade precisa inventar alguma coisa para entrar no mapa do turismo. Às vezes, seu principal produto ou atrativo já está lá. O que falta é enxergá-lo.
Valorizar não significa apenas divulgar
Aqui está outro ponto que considero importante. Temos o hábito de associar a valorização do turismo à promoção. Por isso, criamos marcas, fazemos fotografias bonitas, produzimos vídeos, participamos de feiras e divulgamos os destinos. Tudo isso é necessário, mas valorizar o que é nosso exige muito mais do que promoção.
Exige transformar potencial em produto turístico organizado. Isso significa qualificar pessoas, estruturar experiências, melhorar acessos, cuidar da sinalização, preservar o patrimônio, apoiar pequenos negócios, estimular o empreendedorismo e construir roteiros capazes de fazer o visitante permanecer mais tempo no território.
Também significa conectar municípios, pois o turismo não respeita os limites administrativos que colocamos nos mapas. O visitante pode dormir em uma cidade, almoçar em outra, visitar um atrativo em uma terceira e terminar o dia em outro município. Exatamente por isso, sempre defendi a regionalização do turismo. Vejo com entusiasmo que a política nacional segue essa lógica ao tratar o desenvolvimento turístico de forma regionalizada e descentralizada, articulando municípios e regiões para estruturar e promover os territórios.
Contudo, ainda existe um desafio básico: fazer o turista chegar aos destinos. Em fevereiro deste ano, o Ministério do Turismo detalhou o Programa de Mobilidade e Conectividade Turística, que reconhece problemas antigos do setor, como as condições de acesso, a integração entre os diferentes meios de transporte e a conectividade entre regiões turísticas. A iniciativa é necessária, mas o verdadeiro avanço será medido fora dos documentos oficiais.
Quem percorre o interior do Brasil sabe que ainda existem destinos com enorme potencial turístico aos quais é difícil chegar, onde a sinalização é insuficiente e as opções de transporte são limitadas. Não basta descobrir novos destinos e promovê-los. É preciso criar condições para que o turista consiga chegar até eles. Não adianta revelar um destino maravilhoso se o simples deslocamento até lá continua sendo uma “aventura” que não fazia parte do roteiro.
Precisamos viajar mais pelo nosso próprio estado
Existe ainda outra independência que o turismo brasileiro precisa conquistar: estimular cada vez mais brasileiros a conhecerem primeiro o território onde vivem.
Acredito que fortalecer o mercado doméstico passa também por incentivar o brasileiro a descobrir o próprio estado. O paraibano conhecer melhor a Paraíba. O paulista percorrer São Paulo. O mineiro descobrir outras Minas Gerais para além dos destinos mais conhecidos. E assim por diante. Muitas vezes, planejamos viagens para lugares distantes sem conhecer municípios que estão a poucas horas de casa e que guardam patrimônios, paisagens, sabores, manifestações culturais e histórias que sequer imaginamos existir.
Essa mudança de olhar pode contribuir diretamente para a interiorização do turismo. Existe turismo muito além das capitais e dos destinos já consolidados. Esse turismo está nas pequenas cidades, nas comunidades, na gastronomia, na fé, no artesanato, na observação de aves, nos engenhos, nas propriedades rurais, nas trilhas e nas histórias contadas pelas pessoas que vivem nesses lugares.
Viajar pelo próprio estado também tem uma dimensão econômica importante. Quando escolhemos conhecer um município próximo, movimentamos meios de hospedagem, restaurantes, guias de turismo, condutores, artesãos, produtores e pequenos empreendedores. O dinheiro circula dentro do território e ajuda a transformar o turismo em oportunidade para quem vive ali.
Conhecer também é uma forma de pertencer
Neste mês em que celebramos a Independência do Brasil, é importante ampliar essa reflexão. Independência também pode significar reconhecer a própria identidade. E talvez esse reconhecimento comece mais perto do que imaginamos.
Conhecer o próprio estado é uma forma de compreender melhor o lugar ao qual pertencemos. Isso não significa deixar de conhecer outros estados ou rejeitar experiências internacionais. Pelo contrário. Viajar pelo Brasil e pelo mundo é bom! Amplia repertórios, ensina, inspira e nos ajuda a compreender outras culturas. Mas acredito que existe algo especial em conhecer aquilo que está ao nosso redor. Quanto mais entendemos o nosso próprio território, mais preparados estamos para reconhecer e valorizar a diversidade que existe além dele.
Que saibamos, então, transformar esse reconhecimento em movimento. Conhecer nossos destinos, fortalecer pequenos municípios, preservar patrimônios, gerar renda e criar oportunidades para quem vive nesses territórios também é uma maneira de valorizar o Brasil.
Ana Célia Macêdo
Foto: Wenisson Medeiros
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