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Arqueria Potiguara chega ao Campeonato Brasileiro de Tiro com Arco

Ana Macêdo 05 de setembro de 2026 6 min de leitura

Projeto nascido a partir da experiência de tiro com arco oferecida aos visitantes da Casa da Lua, em Baía da Traição, reúne cerca de 25 alunos e prepara quatro atletas para o Campeonato Brasileiro, em Maricá

Uma experiência de tiro com arco oferecida aos visitantes dentro das atividades de etnoturismo da Casa da Lua, na Aldeia São Miguel, em Baía da Traição, no Litoral Norte da Paraíba, acabou abrindo um caminho que foi muito além da atividade turística. O contato com a Federação Paraibana de Tiro com Arco deu origem à Arqueria Ka’Apora Guarini, projeto que hoje reúne cerca de 25 alunos e se prepara para levar quatro atletas ao 52º Campeonato Brasileiro Open Outdoor de Tiro com Arco, entre os dias 15 e 19 de setembro, em Maricá, no Rio de Janeiro.

Conheci o projeto durante minha passagem pela Aldeia São Miguel e, para quem trabalha com turismo, a história chama a atenção justamente pela maneira como tudo começou. Foi a partir do etnoturismo que uma prática ancestral ganhou também um novo caminho no esporte de competição.

Debora Raquel e José Cordeiro / Minuto Turismo / Ana Célia Macêdo

“Dentro da Casa da Lua e dentro do etnoturismo a gente tem a experiência do tiro com arco tradicional, que é o tiro com arco tradicional do povo indígena”, explica Débora Raquel, integrante da Casa da Lua – Cunhã Bebé Mulheres que Voam. Segundo Débora, durante uma dessas atividades, uma visitante que praticava tiro com arco percebeu o potencial do grupo e decidiu aproximá-lo da Federação Paraibana de Tiro com Arco. “Ela disse: ‘Eu sou arqueira, vou trazer o presidente da Federação de Tiro com Arco aqui para conhecer esse projeto de vocês’, relembra Débora.

A visita aconteceu. E aquilo que até então fazia parte de uma experiência apresentada aos turistas começou a ganhar outra dimensão.

Quando o etnoturismo abre outra possibilidade

O etnoturismo tem justamente na aproximação entre visitante e comunidade uma de suas principais características. A Funai define esse segmento a partir de experiências que permitem o contato direto com modos de vida, identidades, manifestações e práticas culturais de povos indígenas e outras comunidades tradicionais.

No caso da Casa da Lua, essa troca produziu um resultado que dificilmente poderia ter sido planejado quando a experiência turística começou: alguém chegou como visitante, reconheceu uma habilidade existente no território e ajudou a construir uma ponte com o esporte profissional.

A partir desse encontro, o presidente da Federação Paraibana de Tiro com Arco, José Cordeiro, conheceu o trabalho desenvolvido na aldeia e começou a acompanhar o grupo. Hoje, a Arqueria Ka’Apora Guarini integra oficialmente a estrutura do tiro com arco paraibano. O clube está registrado na Confederação Brasileira de Tiro com Arco, com sede na própria Aldeia São Miguel.

Para Débora Raquel, a profissionalização não elimina a origem do projeto. A prática oferecida aos visitantes continua fazendo parte das experiências da Casa da Lua, enquanto a arqueria passou a abrir outra possibilidade para quem vive no território: treinamento, participação em competições e formação de atletas. “Hoje a gente tem em torno de 25 alunos no todo, mais quatro atletas”, conta Débora.

Da Aldeia São Miguel para o Campeonato Brasileiro

Quatro atletas da Arqueria Ka’Apora Guarini vão representar o clube no 52º Campeonato Brasileiro Open Outdoor, promovido pela Confederação Brasileira de Tiro com Arco. A competição será realizada de 15 a 19 de setembro, no Centro de Treinamento Brasil Arco, em Maricá, Rio de Janeiro.

Para um projeto que começou recentemente, chegar a uma competição nacional já representa uma mudança de escala. José Cordeiro não esconde a surpresa com a velocidade dessa evolução. “Era inimaginável que a gente saísse de onde a gente saiu e estivesse indo agora com um time daqui para um Campeonato Brasileiro”, afirmou.

Segundo o dirigente, atletas do projeto já alcançaram resultados em competições regionais e estaduais. Agora, a expectativa está voltada para a estreia no Brasileiro. “Já temos campeãs e campeões da Copa Nordeste. No Campeonato Paraibano, acho que as duas meninas estão nas pontas. E agora a gente vai para o Brasileiro”, acrescentou.

José Ricardo / Do etnoturismo ao Brasileiro, arqueria Potiguara transforma experiência turística em esporte / Minuto Turismo / Ana Célia Macêdo

Preparação ganha reforço técnico

A proximidade da competição nacional também levou à Aldeia São Miguel um reforço importante na preparação das atletas. O instrutor José Ricardo foi enviado à Paraíba pela Confederação Brasileira de Tiro com Arco para auxiliar a equipe nos ajustes dos equipamentos e no aperfeiçoamento da técnica.

Praticante da modalidade barebow, ele acumula experiência em competições nacionais e internacionais e foi campeão pan-americano no Chile. “A gente veio para a Paraíba, enviado pela Confederação Brasileira, para dar uma ajuda a essa equipe das meninas no ajuste do arco e na questão de fazer a mira mais certinha”, explicou. Após acompanhar os treinamentos, a avaliação foi positiva.“Elas são muito boas. O que eu já vi delas atirando, têm uma precisão bem boa”, afirmou.

O barebow é uma das divisões reconhecidas internacionalmente pela World Archery. Diferentemente de outras configurações esportivas, o arco não utiliza mira nem estabilizadores para auxiliar o atleta. Nas competições outdoor de tiro ao alvo, os arqueiros dessa divisão disparam a 50 metros de um alvo com 122 centímetros de diâmetro.

A modalidade exige repetição, controle e consistência técnica, elementos que agora passam a fazer parte da rotina de treinamento da equipe.

Renata Lima / Do etnoturismo ao Brasileiro, arqueria Potiguara transforma experiência turística em esporte / Minuto Turismo / Ana Célia Macêdo

Quatro mulheres a caminho de Maricá

Entre as atletas está a professora Renata Lima, que já havia experimentado o tiro com arco em 2022, interrompeu a prática e voltou a treinar no início deste ano. Mesmo se considerando iniciante, estará entre as quatro representantes do clube em Maricá RJ.

“Nós estamos muito felizes, pois esse time iniciou este ano, e a gente está indo para conhecer, para fazer o nosso melhor, e nossa expectativa é que a gente tenha resultados bons dentro da nossa possibilidade”, conta. Para Renata, a primeira participação em um Brasileiro também representa uma oportunidade de estabelecer contato com atletas e equipes mais experientes. “Essa troca com as pessoas dos outros clubes, dos outros times, e levar o nosso time, as meninas também indígenas, para um Campeonato Brasileiro, isso tem uma importância muito grande”, concluiu.

Do etnoturismo ao Brasileiro, arqueria Potiguara transforma experiência turística em esporte / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Etnoturismo que abre novas possibilidades

O que aconteceu na Aldeia São Miguel também ajuda a revelar a diversidade de possibilidades do etnoturismo. Uma experiência que aproxima o visitante dos saberes e das práticas do povo Potiguara acabou abrindo espaço para uma nova trajetória no esporte, mostrando que, quando desenvolvido com respeito e participação da comunidade, o turismo pode estabelecer conexões que valorizam a cultura, movimentam o território e fazem surgir novas oportunidades.

Ana Célia Macêdo

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