Comunidade ribeirinha de Rio Tinto estrutura experiências que unem manguezal, agricultura, gastronomia e saberes locais e passa a integrar a oferta turística da Rota Terra dos Potiguara
Na Ilha do Aritingui, em Rio Tinto, no Litoral Norte da Paraíba, uma comunidade ribeirinha começa a transformar aquilo que já faz parte do seu cotidiano em experiências para quem deseja conhecer o território. O projeto Aritingui Turismo na Ilha está estruturado para receber visitantes com atividades de turismo de base comunitária, turismo pedagógico, trilhas, educação ambiental, gastronomia e vivências ligadas aos saberes e ao modo de vida dos moradores.
Eu conheci a comunidade durante uma visita à região e a experiência começa antes mesmo de chegar à ilha. O acesso que fiz foi de canoa pelo estuário do rio Mamanguape. Durante a navegação, o manguezal acompanha boa parte do percurso. As raízes aéreas da vegetação aparecem nas margens, enquanto as aves e os pequenos animais do mangue ajudam a revelar a diversidade de um ecossistema que faz parte da paisagem e, principalmente, da vida de quem mora ali.

Cida de Aritingui / Ana Célia Macêdo Minuto Turismo
Uma comunidade que quer apresentar a própria ilha
À frente da Associação dos Moradores da Ilha do Aritingui, Maria Aparecida Jerônimo, conhecida como Cida do Aritingui, acompanha esse processo de preparação. Segundo ela, o projeto Aritingui Turismo na Ilha surgiu para preparar os próprios moradores e organizar as potencialidades existentes no território.
“A gente está trabalhando para que a comunidade possa se empoderar da beleza de tudo que a gente tem aqui, do manguezal, da natureza. E também para que outras pessoas de fora tenham a oportunidade de nos conhecer”, explica.
Durante muito tempo, segundo Cida, a Ilha do Aritingui permaneceu pouco conhecida até mesmo por moradores de outras localidades. “Até pouco tempo, quando o pessoal ia tirar documento, tinha receio de dizer que era daqui, porque as pessoas ficavam questionando onde era a ilha, se estava no mapa ou não”, revelou. Agora, os moradores transformam as potencialidades turísticas da região em experiências organizadas e querem não apenas apresentá-las aos visitantes, mas também participar das decisões sobre como o turismo será desenvolvido.
Para Laís Ramos, agente de Roteiros Turísticos (ART) do Sebrae responsável pela estruturação de rotas no Vale do Mamanguape, o lugar chama atenção justamente pela relação que seus moradores mantêm com o território. “Aritingui é uma surpresa! É uma comunidade que fica bem distante, em meio ao mangue, entre canaviais. Tem uma história de resistência muito bonita, de luta pelo território, de conservação ambiental e de salvaguarda da cultura da comunidade. São pessoas que têm amor por sua terra e que querem realmente passar isso por meio do turismo”, afirma Laís Ramos.

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes Ana Célia Macêdo Minuto Turismo

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes Ana Célia Macêdo Minuto Turismo
Turismo para valorizar o que já existe
Uma das propostas é permitir que o visitante conheça não apenas os ambientes naturais, mas também as atividades produtivas e os saberes da comunidade. A agricultura está entre elas.
Cida explica que existe produção agrícola na ilha, mas boa parte ainda é comercializada por meio de atravessadores. A expectativa é utilizar o turismo para aproximar visitantes e produtores e valorizar o que é cultivado no próprio território. “Eu quero fazer um turismo que valorize a nossa agricultura”, afirma Cida.
A gastronomia também começa a fazer parte dessa construção, e Laís destaca que os moradores estão organizando experiências a partir de receitas e conhecimentos transmitidos entre gerações. Há ainda vivências relacionadas à flora local, com utilização de chás e flores comestíveis na recepção aos visitantes. São experiências simples na forma, mas diretamente relacionadas ao que a comunidade sabe produzir e compartilhar.
No turismo de base comunitária, essa diferença é fundamental, uma vez que não se trata de criar uma atração desconectada da realidade local, mas de organizar aquilo que o território já possui para que a atividade turística também gere oportunidades para seus moradores.

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes Ana Célia Macêdo Minuto Turismo
Do potencial turístico à organização para o mercado
A estruturação do Aritingui Turismo na Ilha ganhou uma nova etapa com o trabalho desenvolvido pelo Sebrae. Laís Ramos explica que a comunidade já vinha construindo a proposta, e que o trabalho posterior concentrou-se na organização desse conjunto como produto turístico e na preparação para sua inserção no mercado.
“Eu tive contato com eles e fiz a organização enquanto arranjo produtivo para o mercado, com estratégia de competitividade e adequando ao que realmente é um vivencial para integração da Rota Terra dos Potiguara”, explica.
Essa integração também aproxima Aritingui de uma proposta maior que vem sendo trabalhada no Vale do Mamanguape: reunir experiências relacionadas aos saberes ancestrais, à terra, à ruralidade e às comunidades que fazem parte do território. E, segundo Laís, a etapa de preparação já avançou. “Eles estão prontos, estão disponíveis, já têm pacote, já têm toda uma entrega e agora estão indo buscar o público.”

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes / Maricelly Brito

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes / Maricelly Brito
Como visitar a Ilha do Aritingui
O projeto prevê formas organizadas de acesso à comunidade. De acordo com Laís Ramos, o Hotel SESI Rio Tinto deverá funcionar como ponto de apoio, onde o visitante poderá encontrar informações e fazer contato com condutores que seguem até Aritingui. As reservas das experiências também poderão ser feitas diretamente pelos canais do projeto Aritingui Turismo na Ilha, por telefone ou Instagram.
Entre os públicos com potencial para conhecer a comunidade está o segmento pedagógico, pois a combinação entre manguezal, agricultura, recuperação ambiental, saberes tradicionais e cotidiano ribeirinho permite trabalhar a visita não apenas como lazer, mas também como oportunidade de aprendizado sobre o território.

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes / Ana Célia Macêdo Minuto Turismo

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes / Ana Célia Macêdo Minuto Turismo
Manguezal faz parte da experiência e da vida da comunidade
A localização da ilha acrescenta outra responsabilidade ao desenvolvimento do turismo, porque a comunidade está inserida na Área de Proteção Ambiental da Barra do Rio Mamanguape (APABRM), unidade de conservação federal criada em 1993 e administrada pelo ICMBio. A APA protege manguezais e outros ambientes costeiros e está diretamente relacionada à conservação dos recursos naturais e à vida das comunidades existentes no estuário.
Para quem chega pelo rio, parte dessa riqueza ambiental pode ser percebida durante a própria travessia. Mas o manguezal que compõe a paisagem também desempenha funções ambientais essenciais e está relacionado ao cotidiano das populações que vivem no estuário. Por isso, transformar esse ambiente em experiência turística exige planejamento e cuidado para que a visitação não comprometa justamente aquilo que desperta o interesse de quem chega.

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes / Maricelly Brito

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes / Ana Célia Macêdo Minuto Turismo
Replanta Mangue aproxima conservação e comunidade
Esse cuidado ambiental já está presente em outro trabalho desenvolvido no território. A Ilha do Aritingui integra as ações do Projeto Replanta Mangue, executado pela organização SOS Sertão na APA da Barra do Rio Mamanguape. A iniciativa trabalha com recuperação de áreas degradadas e envolve as comunidades nas ações de restauração ambiental.
Segundo Cida, o projeto incentivou inicialmente os moradores a produzir mudas de árvores nativas, que passaram a ser adquiridas para utilização nas áreas em recuperação. “Eles nos incentivaram a produzir e agora compram essas mudas para reflorestar as áreas degradadas e as nascentes”, conta. Ela relata ainda ações dentro do manguezal, como plantio de sementes e atividades de educação ambiental com crianças das escolas.
Laís Ramos também identifica essa relação com a conservação como um dos elementos que ajudaram a impulsionar a proposta turística da comunidade. O contato com o Replanta Mangue contribuiu para que os moradores passassem a olhar para o próprio território também a partir das possibilidades de educação ambiental e visitação.

Ilha do Aritingui estrutura turismo de base comunitária e abre experiências aos visitantes / Ana Célia Macêdo Minuto Turismo
Receber visitantes sem perder a essência
Se por um lado a comunidade começa a buscar novos visitantes, por outro existe uma preocupação muito clara sobre como esse turismo deverá acontecer. Cida disse que durante muito tempo os moradores mantiveram certo receio em relação à chegada de pessoas de fora, porém a preparação para o turismo vem ajudando a mudar essa percepção, mas existe uma condição que ela considera essencial. “A gente gosta de ouvir a opinião para ir se adequando, mas de uma forma que também não perca nossa essência. A gente não quer um turismo que venha e mude tudo. A gente quer valorizar o que a gente tem e melhorar, não modificar.”
A fala ajuda a compreender o que diferencia a proposta da Ilha do Aritingui, uma vez que existe, sobretudo, uma comunidade que decidiu organizar tudo isso para receber quem chega sem transformar seu cotidiano em cenário. É justamente aí que o turismo de base comunitária encontra seu modo de existir. O visitante chega para conhecer a ilha, mas são seus moradores que determinam o que desejam compartilhar, como querem receber e de que maneira o turismo poderá contribuir para valorizar o território onde vivem.
Ana Célia Macêdo
🎤 MinutoCast
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