Por Ana Célia Macêdo | 3 min de leitura
O Brasil tem destinos incríveis que ainda são pouco conhecidos. Muitos estão no interior, em pequenos municípios, áreas rurais ou comunidades que começam a enxergar no turismo uma oportunidade de desenvolvimento.
No primeiro artigo da série Brasil por Nós, falei justamente sobre a importância de conhecermos melhor o nosso próprio estado. Mas existe uma questão que vem antes de arrumar as malas: é fácil chegar a esses lugares?
Quem costuma viajar pelo interior sabe que nem sempre.
Às vezes, o destino está a poucos quilômetros de uma cidade maior, mas o percurso inclui estrada ruim, pouca sinalização, transporte limitado ou informações desencontradas. Em outras situações, chegamos ao município sem dificuldade, mas o desafio aparece justamente no trecho final, entre a cidade e o atrativo.
E é aí que uma distância pequena pode se transformar em um caminho bem mais longo.
O turismo começa antes da chegada
Quando escolhemos um lugar para visitar, não pensamos apenas no que encontraremos lá. Pesquisamos a rota, o tempo de deslocamento, as condições da estrada e as opções de transporte. Queremos saber, inclusive, se será possível usar o GPS durante todo o percurso.
Parece básico, mas tudo isso interfere na decisão de viajar.
O próprio Programa de Mobilidade e Conectividade Turística, do Ministério do Turismo, reconhece que problemas na infraestrutura de transporte limitam o acesso aos destinos e afetam a experiência do visitante. Entre os pontos levantados estão a qualidade das estradas, a conectividade aérea e a integração entre diferentes meios de transporte.
Portanto, o problema já está identificado. Agora precisamos observar quanto desse planejamento chegará, de fato, aos territórios.
Às vezes, o que falta é uma placa
Nem todo gargalo exige uma grande obra.
Uma sinalização bem colocada pode fazer diferença para quem nunca esteve naquele lugar. Um acesso conservado pode aproximar uma comunidade de um roteiro turístico. Informações claras podem dar segurança para que o viajante siga alguns quilômetros além do destino mais conhecido.
Por isso, achei interessante observar que o Programa de Infraestrutura Turística, aprovado em agosto deste ano, estabeleceu como uma de suas metas apoiar 50 projetos de implantação ou reforma de sinalização turística. A política também prevê melhorias de acesso a atrativos, equipamentos turísticos e a trilhas de longo curso.
Pode parecer pouco diante do tamanho do Brasil. Ainda assim, chama atenção para algo essencial: não existe interiorização do turismo sem infraestrutura compatível com ela.
Um destino não termina na divisa do município
Há outro ponto que considero fundamental. O turista não viaja olhando limites administrativos.
Ele pode se hospedar em uma cidade, visitar um atrativo em outra, almoçar em um terceiro município e voltar para dormir onde começou o roteiro. Para quem viaja, tudo faz parte da mesma experiência.
É por isso que sou entusiasta da regionalização do turismo. Uma vez que faz sentido quando os municípios conseguem se complementar e, principalmente, quando existe mobilidade entre eles.
O Conselho Nacional de Turismo criou, em 2025, uma câmara permanente justamente para discutir transportes multimodais e infraestrutura. Entre os temas estão os deslocamentos em territórios urbanos, rurais e tradicionais e a conexão entre diferentes meios de transporte.
No papel, portanto, já entendemos que turismo e mobilidade precisam caminhar juntos. O desafio continua sendo transformar essa compreensão em realidade.
O caminho também faz parte da experiência
Melhorar as condições de deslocamento não beneficia apenas quem visita. Beneficia quem vive no território.
Quando o turista consegue circular com mais facilidade, ele amplia seu roteiro. Pode permanecer mais tempo, conhecer outros atrativos, consumir produtos locais, contratar um guia ou condutor, almoçar em um pequeno restaurante e comprar diretamente de um artesão.
Assim, infraestrutura também ajuda a distribuir os benefícios econômicos do turismo.
Tecnologia, divulgação e redes sociais podem revelar lugares que antes quase ninguém conhecia. Um vídeo pode despertar a vontade de visitar uma comunidade, uma cachoeira, um engenho ou uma pequena cidade. Mas nenhuma campanha consegue resolver sozinha aquilo que o viajante encontrará pelo caminho.
O Brasil já tem muitos destinos. E acredito que continuaremos descobrindo outros tantos à medida que olharmos com mais atenção para o nosso interior.
Agora precisamos fazer com que os caminhos estejam tão preparados para receber o turista quanto os lugares que queremos apresentar a ele.
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