Na Aldeia Três Rios, em Marcação, iniciativa criada por jovens indígenas transformou área antes utilizada como lixão e começa a estruturar a visitação a partir da recuperação ambiental, da educação e da cultura Potiguara
Na Aldeia Três Rios, em Marcação, no Litoral Norte da Paraíba, uma área antes utilizada como lixão começa a ganhar também uma nova perspectiva com o turismo. Criado por jovens indígenas para recuperar um espaço degradado, o Projeto Curica reúne reflorestamento, produção de mudas nativas e educação ambiental. Agora, ao receber visitantes interessados em conhecer essa experiência, a comunidade começa a olhar para o turismo de base comunitária como mais uma possibilidade de valorização do território, da cultura Potiguara e de geração de oportunidades
Eu visitei o Projeto Curica e o contraste entre o passado da área e o que encontrei ajuda a dimensionar essa transformação. Onde antes havia lixo, hoje existe um trabalho conduzido pela própria comunidade para recuperar a vegetação e compartilhar conhecimentos sobre o território.
Segundo Jerfeson Machado, ecólogo, coletor de sementes, produtor de mudas e coordenador ambiental da Rede Curica, a área passou por diferentes processos de degradação ao longo do tempo, entre eles desmatamento, cultivos agrícolas e retirada de sedimentos. Mais tarde, o local passou a receber resíduos.
A mudança ganhou força em outubro de 2023, quando cerca de 30 pessoas participaram da primeira ação de retirada do lixo. Outros mutirões vieram depois, acompanhados pela coleta de sementes em fragmentos florestais próximos e pela produção de mudas para o reflorestamento.

Projeto Curica abre caminho para turismo de base comunitária / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Da recuperação ambiental à Rede Curica
O projeto cresceu e deu origem à Associação Indígena Socioambiental Curica – Rede Curica, que reúne indígenas Potiguara e desenvolve ações de restauração ambiental, produção de mudas nativas, educação ambiental, formação de jovens e valorização cultural.
O nome Curica faz referência à ave também conhecida como papagaio-do-mangue (Amazona amazonica). Segundo os integrantes do projeto, ela continuou presente naquele ambiente mesmo durante o período de degradação, tornando-se uma referência para a iniciativa.
Para Jaqueline Potiguara, integrante da Rede, recuperar a área significa também pensar no futuro da comunidade. É nesse sentido que ela utiliza a semente como símbolo do trabalho realizado hoje e do que poderá permanecer para as próximas gerações.
“A semente que a gente planta hoje é para ter o fruto amanhã”, afirma Jaqueline.
A experiência ultrapassou os limites da aldeia. Em 2026, o Projeto Curica foi tema de relato apresentado no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, destacando a restauração ecológica desenvolvida no território indígena Potiguara.

Projeto Curica abre caminho para turismo de base comunitária / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Educação ambiental fortalece identidade
O espaço recuperado também passou a receber escolas, estudantes e grupos de instituições como UFPB e IFPB para conhecer o processo de produção de mudas e participar de atividades de educação ambiental.
Para a comunidade, porém, ensinar a cuidar do ambiente também significa aproximar crianças e jovens da própria história.
Jaqueline explica que o Curica busca fortalecer esse vínculo entre as novas gerações, os anciãos e os conhecimentos tradicionais. “A gente tem que plantar hoje essa sabedoria”, resume.
Assim, o que começou como uma resposta à degradação ambiental passou a reunir recuperação da natureza, formação dos jovens e preservação da memória Potiguara. É justamente essa experiência que agora começa a despertar interesse também para a visitação.

Projeto Curica abre caminho para turismo de base comunitária / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Curica começa a abrir caminho para o turismo
O Projeto Curica já recebe pessoas interessadas em conhecer o trabalho desenvolvido na Aldeia Três Rios. A partir dessa procura, a comunidade começa a avançar na perspectiva de uma visitação organizada, aproximando a iniciativa do turismo indígena de base comunitária.
O conteúdo dessa experiência já está no território. O visitante pode conhecer a história da recuperação da área, o trabalho com sementes e mudas, as ações de educação ambiental e, principalmente, ouvir de quem vive ali como a comunidade transformou um antigo lixão em espaço de recuperação e aprendizagem.
Para o cacique Elias, essa mudança já aponta para uma nova possibilidade. “Aqui era um lixão, hoje é um ponto de visita de turismo e um projeto de meio ambiente”, reforça.
A perspectiva encontra espaço em um território que já recebe visitantes interessados na cultura Potiguara. Marcação, ao lado de Rio Tinto e Baía da Traição, reúne aldeias, paisagens naturais, gastronomia, saberes e manifestações culturais que integram a atividade turística do Litoral Norte da Paraíba.
A visitação em Terras Indígenas, entretanto, possui regras próprias. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas estabelece que o turismo nesses territórios deve acontecer em bases comunitárias e sustentáveis, com protagonismo indígena e respeito às decisões, à cultura, aos costumes e à organização de cada povo.

Projeto Curica abre caminho para turismo de base comunitária / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo
Turismo como continuidade
No Curica, o turismo chega depois de um processo que começou com a mobilização da juventude, passou pela retirada do lixo e avançou para o reflorestamento, a produção de mudas e a educação ambiental.
Essa trajetória pode ser justamente o diferencial da experiência que começa a ser construída.
Ao abrir o projeto para visitantes, a comunidade tem a possibilidade de compartilhar uma história que já existe, sem transformar o território apenas para atender ao turismo. O desafio, agora, será estruturar essa nova etapa mantendo os indígenas como protagonistas e definindo como, o que e de que forma desejam apresentar seu território.
Ana Célia Macêdo
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