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O que fazer em Rio Tinto? Conheça a história da cidade-fábrica

Ana Macêdo 20 de setembro de 2026 8 min de leitura

Da antiga Companhia de Tecidos ao Cine Teatro Orion, um passeio a pé pelo Centro Histórico de Rio Tinto revela a arquitetura, as memórias e as contradições de uma cidade que nasceu em torno de uma das maiores experiências industriais da Paraíba.

Há cidades que conhecemos melhor quando caminhamos por elas e, em Rio Tinto, no Vale do Mamanguape, essa percepção ganhou outro sentido para mim. Fiz um city tour pelo Centro Histórico durante o Fampress Saberes Ancestrais na Terra dos Potiguara e descobri que, por trás dos tijolos aparentes, das antigas construções, existe uma história que ainda pode ser lida nas ruas.

Antes mesmo de começarmos, tivemos uma surpresa. Nosso anfitrião Fulano de local,  nos recebeu caracterizado como Frederico Lundgren, personagem diretamente ligado à implantação da Companhia de Tecidos Rio Tinto e à formação da cidade. A proposta foi nos conduzir pelo percurso como se estivéssemos voltando no tempo e, confesso, a experiência ganhou outra dimensão. Enquanto ele contava as histórias, caminhávamos exatamente pelos lugares onde muitas delas aconteceram.

City tour em Rio Tinto diante da Igreja de Santa Rita de Cássia, no Vale do Mamanguape, Paraíba.

Companhia de Tecidos Rio Tinto / O que fazer em Rio Tinto? Conheça a história da cidade-fábrica / Minuto Turismo / Ana Célia Macêdo/ imagem melhorada por IA

A antiga fábrica mostra onde tudo começa

Nosso city tour em Rio Tinto começou na antiga Companhia de Tecidos Rio Tinto, e não poderia ser diferente. O imponente conjunto de tijolos aparentes ajuda a explicar a própria configuração urbana que encontramos durante o restante da caminhada.

A implantação da fábrica começou no início do século XX e as operações tiveram início em dezembro de 1924. A partir dela, os Lundgren estruturaram uma verdadeira cidade-fábrica, com moradias, igreja, escola, hospital, clubes, praça, cinema e outros equipamentos necessários à vida de quem trabalhava e vivia naquele núcleo industrial.

A arquitetura também chama a atenção, e pesquisas da Universidade Federal da Paraíba relacionam o conjunto a padrões das cidades industriais inglesas, especialmente ao chamado estilo manchesteriano. Os tijolos e as telhas utilizados nas construções eram produzidos na cidade pela Olaria Rio Tinto, criada para atender à expansão do complexo.

Contudo, essa história não começa com a chegada da fábrica. O território já era ocupado por populações indígenas Potiguara, cuja presença antecede o processo de industrialização e permanece fundamental para compreender a formação histórica e cultural dessa região.

Pátio da Igreja de Santa Rita de Cássia / O que fazer em Rio Tinto? Conheça a história da cidade-fábrica / Minuto Turismo / Ana Célia Macêdo/ imagem melhorada por IA

Com esse contexto em mente, deixamos a antiga Companhia e seguimos a pé pelo centro.

A cidade-fábrica aparece diante dos nossos olhos

À medida que avançávamos, comecei a perceber que as construções não estavam distribuídas aleatoriamente. A própria arquitetura revelava a organização social daquele período, já que havia diferentes padrões de moradia para operários, técnicos e dirigentes da Companhia.

Na região da Praça João Pessoa, nosso anfitrião chamou a atenção para antigas residências relacionadas aos funcionários de cargos mais elevados, entre eles profissionais europeus que vieram trabalhar em Rio Tinto. Enquanto observávamos as casas, ele explicava detalhes que facilmente passariam despercebidos para quem atravessasse aquelas ruas sem conhecer sua história.

Foi quando percebi que o interessante desse passeio não estava apenas em ver prédios antigos, mas em compreender o que eles representavam. As fachadas, os materiais utilizados e até a localização das residências ajudam a contar como funcionava aquela sociedade.

E a caminhada continuou pela praça, que concentra alguns dos elementos mais representativos desse conjunto histórico.

A Igreja de Santa Rita de Cássia e suas curiosidades

Entre as construções que encontramos pelo caminho, a Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia foi uma das que mais despertaram minha curiosidade.

Construída durante o período de atuação dos Lundgren, a igreja mantém os característicos tijolos aparentes e apresenta, na fachada, a representação de uma águia feita com os próprios tijolos. O elemento costuma ser relacionado à influência germânica existente em Rio Tinto, onde a presença de trabalhadores e técnicos alemães ligados à Companhia está documentada.

Ao redor dessa presença europeia surgiram, ao longo do tempo, diferentes histórias e interpretações. Algumas fazem parte da documentação histórica; outras permanecem no campo da memória e das narrativas transmitidas pela população. Durante o passeio, conhecer essas versões tornou a experiência ainda mais rica, desde que se compreenda, claro,  a diferença entre o que está historicamente comprovado e aquilo que integra o imaginário local.

Quando Frederico encontra Frederico

A poucos passos dali aconteceu um dos momentos mais divertidos do percurso. Nosso “Frederico Lundgren” parou diante da estátua de Frederico João Lundgren, instalada na Praça João Pessoa.

A fotografia, claro, foi inevitável.

Enquanto o personagem posava diante da representação do homem que interpretava, passado e presente pareciam se encontrar no mesmo cenário. Foi uma pausa descontraída, mas que traduziu muito bem a proposta do passeio: aproximar o visitante da história sem transformar a experiência em uma aula carregada de datas e acontecimentos.

Essa maneira de conduzir o city tour fez diferença para mim. A interpretação trouxe leveza à caminhada e criou uma conexão entre os lugares visitados.

Cine Orion / O que fazer em Rio Tinto? Conheça a história da cidade-fábrica / Minuto Turismo / Ana Célia Macêdo/ imagem melhorada por IA

Cine Orion / O que fazer em Rio Tinto? Conheça a história da cidade-fábrica / Minuto Turismo / Ana Célia Macêdo/ imagem melhorada por IA

O Cine Teatro Orion encerra a caminhada

Deixamos a praça e seguimos para a última parada, o Cine Teatro Orion, um dos espaços mais emblemáticos da antiga cidade-fábrica.

Inaugurado em 1944, o cinema fazia parte da estrutura de lazer criada para a população e impressiona pelas dimensões. Pesquisas acadêmicas apontam capacidade para cerca de 1.800 espectadores, algo que chama ainda mais atenção quando pensamos em uma cidade do interior paraibano naquela época.

Enquanto conhecia sua história, tentei imaginar o Orion em plena atividade, com as pessoas chegando para as sessões, as conversas antes do filme e a expectativa quando as luzes se apagavam. O espaço também recebeu apresentações culturais e se tornou um importante ponto de convivência social.

Encerrar o passeio ali fez todo sentido, uma vez que haviamaos começado pelo espaço do trabalho, atravessado áreas de moradia, convivência e religiosidade e chegado justamente ao lugar dedicado ao entretenimento. Em poucas ruas, era possível compreender diferentes dimensões da vida naquela cidade-fábrica.

Planeje sua visita a Rio Tinto

Se você pretende conhecer Rio Tinto, reserve um tempo para caminhar pelo Centro Histórico. As distâncias são curtas, mas há muito para observar entre a antiga fábrica, as casas, a praça, a igreja e o Cine Teatro Orion.

Vá sem pressa e permita-se conhecer o que existe por trás dessas construções. Foi assim que fiz e, ao final do passeio, percebi que estava olhando para a cidade de outra maneira. A condução do anfitrião local, caracterizado como Frederico Lundgren, ajuda a conectar os lugares e a compreender como trabalho, moradia, religião e lazer marcaram a formação da antiga cidade-fábrica.

E, se você tiver mais tempo, minha sugestão é ampliar a viagem e fazer o Saberes Ancestrais, na Terra dos Potiguara, um percurso de dois dias pelo Vale do Mamanguape, com uma imersão na cultura e nos saberes desse território.

Tanto o City Tour Rio Tinto Cidade-Fábrica, experiencia unica quanto o Saberes Ancestrais na Terra dos Potiguara, roteiro, podem ser adquiridos pela We Guide.

City tour em Rio Tinto diante da Igreja de Santa Rita de Cássia, no Vale do Mamanguape, Paraíba.

City tour pelo Centro Histórico de Rio Tinto revela a arquitetura e as histórias da antiga cidade-fábrica no Vale do Mamanguape. Imagem criada por IA

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Ana Célia Macêdo
*jornalista de turismo e anfitriã local We Guide
Estive em Rio Tinto durante o Fampress Sabores e Saberes da Trilha dos Potiguara, no Vale do Mamanguape, a convite  do Sebrae Paraíba.

🎤 MinutoCast

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