Há lugares que a gente pensa conhecer até voltar a eles por outro caminho. Foi um pouco dessa sensação que tive ao percorrer o Café & Quilombo, roteiro de afroturismo de dois dias criado pela Afrolar Afroturismo, que me levou de Bananeiras a Dona Inês, no Brejo Paraibano.
Eu já conhecia os dois municípios e algumas das experiências incluídas no roteiro, mas desta vez havia um fio ligando cada parada: o café. Ele apareceu na história econômica de Bananeiras, passou pela agricultura e pelos antigos engenhos e, no segundo dia, reapareceu na Comunidade Quilombola Cruz da Menina, associado à memória, ao pertencimento e ao empreendedorismo. Foi essa conexão que me fez olhar para lugares conhecidos de outra maneira.
O café como ponto de partida
Saímos cedo de João Pessoa em direção a Bananeiras. Depois do café da manhã no Cenário Hostel e Boteco, seguimos para o Campus III da Universidade Federal da Paraíba, onde funciona a tradicional Escola Agrícola Vidal de Negreiros. Começar por ali ajudou a contextualizar a relação do Brejo com a agricultura antes de seguirmos com o roteiro.

Jonas Esperança, Afrolar Turismo / Ìyá Vivi De Ésù / Minuto Turismo por Ana Célia Macêdo
O próprio nome Vidal de Negreiros nos leva ao período colonial brasileiro. Ele foi um personagem do século XVII ligado às disputas contra a ocupação holandesa e à sociedade colonial de seu tempo. Ao trazer essa referência para um roteiro de afroturismo, porém, é importante ampliar o olhar para a estrutura econômica daquele período, marcada pelos engenhos de cana de açúcar, fundamentais para a formação econômica, social e cultural da Paraíba.
Essa perspectiva nos acompanhou durante todo o roteiro, muito pela condução de Jonas Esperança, da Afrolar Afroturismo, que não se limitou a indicar apenas o que estamos vendo. Com uma maneira particular de interpretar o território, ele vai atrás das histórias que ficaram à margem das narrativas tradicionais e conta, como poucos, a trajetória de homens e mulheres negros escravizados que participaram da construção do Brejo Paraibano, mas que durante muito tempo permaneceram invisibilizados.

Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano / Minuto Turismo Ana Célia Macêdo
A cafeicultura também teve grande importância econômica no Brejo Paraibano entre o século XIX e as primeiras décadas do século XX. Municípios como Bananeiras chegaram a concentrar cerca de seis milhões de pés de café, até que uma praga, somada a outros problemas enfrentados pelos produtores, praticamente interrompeu aquele ciclo na década de 1930. Atualmente, projetos desenvolvidos pela UFPB vêm contribuindo para a retomada da cultura, inclusive por meio do cultivo agroecológico e da agricultura familiar.

Guia Júlio Matias no Sítio Flor do Café / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano / Minuto Turismo Ana Célia Macêdo

Sítio Flor do Café / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano / Minuto Turismo Ana Célia Macêdo
No Sítio Flor de Café, essa história deixa de ser apenas informação e começa a ganhar forma diante dos nossos olhos. A experiência inclui trilha ecológica e apresenta o manejo agroecológico, a história da cafeicultura, a torra artesanal e, claro, a degustação.
Eu, que estou acostumada a encontrar o café pronto na xícara, pude perceber quantas etapas existem antes de ele chegar à nossa mesa. Conhecer o cultivo, entender o manejo e acompanhar parte do processo aproxima o visitante não apenas do produto, mas também das pessoas envolvidas em sua produção.

Restaurante Vó Corina / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano

Engenho Martiniano / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano
Quando o patrimônio ganha outras perguntas
Depois do almoço no Restaurante Vó Corina, seguimos para o Engenho Martiniano, conjunto histórico de arquitetura do século XIX ligado à tradição dos antigos engenhos do Brejo. Visitar um lugar como esse dentro de uma proposta de afroturismo muda um pouco o nosso olhar, porque a arquitetura e a história econômica continuam importantes, mas outras questões passam a fazer parte da experiência.
Comecei a pensar não apenas na riqueza produzida nesses espaços, mas também nas pessoas que participaram dessa produção. Quem trabalhava, quem plantava, quem colhia e quem construía? São perguntas simples, mas capazes de modificar a maneira como observamos um patrimônio histórico.
E foi justamente nesses momentos que a condução de Jonas fez a diferença. Ao recuperar personagens negros e acontecimentos que nem sempre aparecem nas narrativas turísticas convencionais, ele nos levou a olhar para o patrimônio além das fachadas e dos casarões. Não se trata de substituir uma história por outra, mas de reconhecer que muitas pessoas que participaram da formação econômica e cultural do Brejo praticamente desapareceram da maneira como essa história passou a ser contada.
Essa é uma das características mais interessantes do Café & Quilombo. O roteiro não apaga a história que já conhecemos sobre o Brejo, mas acrescenta outras perspectivas e nos convida a perceber quem também participou de sua construção.

Pôr do Sol no Cruzeiro de Roma / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano / Minuto Turismo Ana Célia Macêdo

Alana e Álida, filhas do Guia de Turismo Júlio Matias e responsáveis pelo Paraíso Café / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano
De lá, seguimos para o Cruzeiro de Roma, no alto da Serra da Borborema, onde a paisagem abriu espaço para uma pausa e para a contemplação. Nesse dia, contamos também com a condução do guia de turismo local Júlio Matias, que acompanhou o percurso e contribuiu com seus conhecimentos sobre a história do café na região.
Ao final do primeiro dia, café, agricultura, engenho, patrimônio e memória já começavam a fazer sentido dentro de uma mesma narrativa. Ainda no Cruzeiro de Roma, encerramos a tarde com um café regional preparado pelas garotas do Paraíso Café, com sabores que reforçaram a conexão do roteiro com a gastronomia e a produção local. Ainda faltava, porém, uma parte importante dessa história, e seria justamente ela que encontraríamos no segundo dia do roteiro.

Nelsimar Rodrigues, Ninho Peregrino de portas abertas / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano

Ana Célia Macêdo e Sulamita Nóbrega / Hostel Cenário e Boteco / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano
Entre as opções de hospedagem estão o Hostel Cenário e Boteco da empresária Sulamita Nóbrega, no Centro, onde também aconteceram atividades da nossa programação, e o Ninho Peregrino, do empresário Nelcimar Rodrigues, outra alternativa de hospedagem na área central da cidade.

Grupo Afrolar em Dona Inês / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano/ Minuto Turismo Ana Célia Macêdo
No segundo dia, seguimos para Dona Inês
Na manhã seguinte, deixamos Bananeiras e seguimos para Dona Inês, e o roteiro mudou de ritmo e também de perspectiva. Passamos pelo Espaço de Memória de Dona Inês, pela Igreja-Mãe, pelo Mirante da Serra e pelo cajueiro associado à origem do município.

Mirante da Serra / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano/ Minuto Turismo Ana Célia Macêdo
Gosto particularmente quando um roteiro coloca lado a lado história documentada e tradição oral, porque nem tudo o que uma comunidade preserva está escrito em livros ou documentos. Muitas histórias permanecem porque alguém as contou, outra pessoa as viu e uma geração decidiu transmiti-las à seguinte. Dona Inês tem muito dessa relação com a memória.
Do alto do mirante, a paisagem montanhosa também ajuda a compreender a geografia do município e sua inserção no Brejo Paraibano. Mas o nosso caminho ainda tinha outro destino e, depois do almoço, seguimos para a Comunidade Quilombola Cruz da Menina.

Ana Célia Macêdo na frente da Capela Cruz da Menina / Minuto Turismo
Cruz da Menina e a história contada por quem vive nela
Eu já conhecia a Cruz da Menina de outras pautas e experiências, mas voltar desta vez tinha outro significado. No Café & Quilombo, a comunidade não aparece apenas como uma parada do itinerário, mas como parte essencial da história que começou a ser contada no dia anterior.
A experiência começa com uma roda de conversa sobre território, memória, formação da comunidade e sua conexão com o turismo.
Oficina de Argila no Quilombo Cruz da Menina / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano / Ana Célia Macêdo / Minuto Turismo

Sérgio Teófilo / Arquivo pessoal de Ana Célia Macêdo Minuto Turismo
Depois vieram os saberes e fazeres. Na oficina de argila, o barro deixa de ser apenas matéria-prima e aproxima o visitante de práticas preservadas pela comunidade. Em seguida, conhecemos o Ateliê Sérgio Teófilo, onde arte, madeira e outros materiais ganham formas relacionadas ao território.
Esse contato com quem produz é uma das coisas que mais valorizo no turismo de base comunitária. Comprar uma peça artesanal é uma experiência, mas conhecer o artesão, ouvir sua história e compreender o processo que existe antes de aquela peça chegar às nossas mãos transforma completamente essa relação.
Também passamos pela Capela Cruz da Menina, onde memória, religiosidade e narrativas preservadas pela comunidade acrescentam outra camada ao percurso. Após atravessar tantos elementos dessa história, chegamos novamente ao ponto que havia iniciado nossa viagem: o café.

Acervo pessoal de Ana Célia Macêdo / Café Quilombola / Cruz da Menina / Minuto Turismo
O café que abriu e fechou a viagem
No fim da tarde, fomos recebidos no Café Quilombola, experiência conduzida pelas irmãs Rafaela e Ramona Henrique. Na mesa, alimentos ligados à produção e à gastronomia da comunidade, como tapioca de coco, beiju, cocadas, doces e geleias, ajudam a construir a experiência. Além de uma parada gastronômica, o Café Quilombola cria um momento para sentar, conversar, conhecer as pessoas e permanecer um pouco mais no território.
O café permaneceu como fio condutor da viagem, mas as histórias contadas em torno dele foram mudando ao longo do caminho…

Ana Célia Macêdo / Afroturismo: roteiro de dois dias no Brejo Paraibano / Minuto Turismo
Minha opinião
Após dois dias, voltei com a impressão de que a maior força do Café & Quilombo não está em nenhum dos atrativos isoladamente, mas na maneira como eles foram conectados. Para mim, essa é também uma maneira interessante de renovar o turismo no Brejo Paraibano. Não precisamos necessariamente descobrir novos lugares o tempo inteiro; às vezes, precisamos voltar aos lugares que já conhecemos, dispostos a ouvir histórias que ainda não ouvimos. Foi assim que percorri Bananeiras e Dona Inês desta vez.
O Café & Quilombo é também o começo de uma proposta mais ampla da Afrolar Afroturismo. A empresa trabalha na formatação de outros roteiros voltados ao turismo afro-brasileiro na Paraíba, ampliando a possibilidade de conhecer destinos já consolidados a partir das histórias, dos personagens e das contribuições da população negra, que nem sempre ocupou o mesmo espaço nas narrativas turísticas.
Ana Célia Macêdo
Minuto Turismo
* Participei do Roteiro Café & Quilombo, a convite da Afrolar Afroturismo
SERVIÇO
Café & Quilombo
O que é: roteiro de afroturismo de dois dias criado pela Afrolar Afroturismo, conectando café, memória, patrimônio, território e pertencimento no Brejo Paraibano.
Onde: Bananeiras e Dona Inês, Paraíba
Duração: 2 dias
Saída: João Pessoa
Operação e informações: Afrolar Afroturismo
Guia de turismo: Jonas Esperança
Hospedagem em Bananeiras: Ninho Peregrino e Cenário Hostel e Boteco
Experiências: cafeicultura, patrimônio histórico, engenhos, gastronomia regional, memória afro-brasileira, turismo quilombola, artesanato, religiosidade e vivências comunitárias.
Observação: a Afrolar está desenvolvendo outros roteiros de afroturismo na Paraíba.
Informações e reservas: Afrolar Viagens e Assessoria, +55 (83) 9331-8358
🎤 MinutoCast
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